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Momento Belo Monte: Norte Energia atua na conservação de quelônios do Xingu
Postado em 04/03/2013

A Norte Energia está empenhada em promover o desenvolvimento com respeito ao meio ambiente e valorização das culturas tradicionais. Para mostrar na prática este princípio, a empresa que constrói a Usina Belo Monte apresenta o Momento Belo Monte, veiculado todas as semanas nas principais emissoras de TV do Xingu e Transamazônica e agora no Blog Belo Monte.

Saúde, Educação, Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia são alguns dos assuntos de interesse coletivo abordados de forma didática, simples e objetiva.

Nesta primeira edição do Momento Belo Monte, você vai conhecer o trabalho de pesquisadores e moradores para garantir a preservação e reprodução de quelônios, no Tabuleiro do Embaubal.

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  • O senso de liberdade dos beiradeiros, bem particular, provoca boa parte da dificuldade que temos em imaginar todas aquelas comunidades vivendo da agricultura. Mas também garante o encantamento que sentimos, repetidas vezes, a cada pessoa que conhecemos. Raimundo Morais da Silva, de 40 anos, é nascido ali. E não possui terras. Ele dirige a voadeira que nos leva de casa em casa, de família em família. Acompanhando-nos a cada visita, ele mostra que conhece todos os moradores daquelas ilhas, e cada canto das águas do rio. Entre as pessoas que ali conhecemos, é Raimundo o que mais roda pelo mundo – vive entre Altamira e as ilhas, conheceu bem Belém, viajou pelo interior do Pará. Seguramente é o que mais conheceu o mundo e, quanto mais o conheceu, mais afirmou seus desejos de vida ali nas ilhas onde nasceu. E traduz com mais facilidade o que olhares e meias palavras evitam dizer entre os beiradeiros.Quando pergunto a cada um dos beiradeiros o que fez durante a vida, como aprenderam a ganhá-la, todos começam a resposta pelos pais. O que aprenderam com o pai, como a mãe contribuía para a renda e o sustento da casa... Raimundo espera um espaço de silêncio e fala rápido, mal olhando para trás enquanto pilota o barco: Eu até hoje não faço negócio com ninguém sem aprovação do pai e da mãe. Todos concordam com um leve movimento de cabeça. Raimundo já foi e ainda é pedreiro, marceneiro, piloto de barcos, guia, já quebrou castanhas, cortou seringas, entende de madeira... Foi segurança de figurões da política do Estado do Pará, passou pelo garimpo, marisco de gato (aqui todo mundo tem espingarda desde menino), entende de pesca... Sobre a pesca, afirma, amansei uma capivara e vendi para comprar a minha primeira rede... Não se aperta por nada, e a cada casa maior por que passamos, ele me conta que participou da construção. Preparou um tucunaré na pequena frigideira com fogareiro que carrega consigo. O arroz, na panelinha, foi feito por sua irmã. E a farinha de mandioca, indispensável, ele carrega em um recipiente. Quando me vê comendo com gosto a cabeça do peixe, atira: você come peixe que nem beiradeiro. Sem graça, afirmo que gosto da cabeça, não sabia que ele comeria, ninguém pegava essa parte... E ele firma que está contente de ver alguém de fora comer assim, nunca alguém que veio visitar o lugar pegou a cabeça antes e a comeu direitinho, sem deixar lascas... Pergunto o que acha dessas mudanças na região. O rio é uma coisa viva, né? Tenho medo de não voltar a ser o que era. Sem a seca pode até ficar bom pra maioria, quem sabe. Mas é tão bonito de se ver as prainhas, não vão ter mais, você precisa voltar aqui em setembro pra ver... Os peixes de água agitada, acho que voltam, mas precisa ver.... Não sei como a piracema vai ficar, não vão ter mais aquelas encostas onde eles desovam... Talvez alguns fiquem mais longe...Eu pergunto se ele tem medo disso, como os outros, de problemas com a pesca futura (que todos manifestaram, mesmo que não vivam mais da pesca há tempos). Ele olha para trás e diz, rindo: eles têm medo que a usina arrebente e a água cubra tudo, cubra eles, e ri bastante. Os outros imediatamente concordam, assustados: nós tamos no meio aqui, não tem pra onde correr, quem vai ajudar a gente se acontecer? E assim, só assim, consigo entender não só o que são os receios do futuro que esses moradores mantêm, mas também  como pensam. Eu rio junto com Raimundo e explico que isso é quase impossível, cito locais onde as pessoas vivem há gerações perto de diques e represas, falo de outros países, explico que um rompimento não se dá de uma hora para outra... Eles parecem mais calmos. Mas Raimundo não teme o futuro não. Quem se habitua a dificuldade e ao sofrimento não se queixa. Mas eu pergunto do sofrimento, qual é. Ele adora a vida que leva, deixa isso claro. Não iria morar de vez nem em Altamira, quanto mais Belém. Gosto do sossego daqui, já tive oportunidades mas não largo isso por nada no mundo. Insisto na questão, onde está a dificuldade, a dor. Ele diz que sozinho não há preocupação, sempre vou me virar. Mas to separado, meus filhos ficam com a mãe em Altamira. Agorinha um ficou bem doente, só em Belém pra tratar. Fiz um acerto com a firma (Norte Energia), conversei com diretores lá, peguei adiantamento e passei uns dias lá, consegui levar ele. Isso é complicado, não ter nada aqui... A insegurança que Raimundo sente é pelos seus, não por si próprio. Eles não acostumam mais aqui, não. A vida fica outra, tão estudando, vão se dar bem na cidade. Pra mim, sempre vai ter coisas pra fazer. O papo suscita outra conversa entre os moradores, falam que devia ter escolas, postos de saúde e hospitais ali perto. Um arrisca, pros índios tão fazendo escolas, lá longe da represa. Raimundo corta de novo, já falei pra vocês, índio é índio, gente é gente, eles têm proteção e ganham as coisas antes, com nós  é mais difícil. Eles calam, consentindo. A cada vez que apressa o barco ou desacelera, olha com boa antecedência a sua frente e já tem o percurso e a velocidade decididos. Pergunto como.  Ele aponta o movimento de um trecho da água, com maior ondulação, e diz que pela agitação já sabe se tem pedra ou árvore por baixo.  Marcela afirma que não pega outro barqueiro, só ele. Que confirma, sei de cada pedacinho do rio de cor, sei por onde posso voar ou tenho de maneirar, nunca sofri acidentes como os outros. De desejos futuros, quero saber, insisto. Raimundo afirma que não leva jeito para ficar preso na terra, não. Acha bom para os outros, mas não quer esse caminho. Como ele disse, sempre haverá algo a fazer. E ele tem orgulho de mostrar suas pegadas, seu trabalho , a cada casa que passa, a cada peixe que pesca, a cada pedaço do rio. Para não dizer que não sonhou com o futuro, aponta minha alpargata. Meu sonho é comprar uma havaiana amarela, original.E se ri toda a vida. Raimundo cativa almas, e sabe disso.
  • Seu Babá, como é conhecido Sebastião Almeida da Silva, herdou seu lote quando da morte de seu pai. Mas ficou anos apenas com a mandioca e o milho, cortando uma madeira aqui, outra ali... Agora, aposta tudo no cacau e no trabalho em suas terras.Do alto de seus 60 anos vividos sempre ali, ao redor da Ilha da Fazenda, mantendo muita vitalidade, seu Babá lembra que conheceu o garimpo aos oito anos de idade. Na época era o garimpo e no verão, seringueiras. Fiquei uns quinze anos assim. Mexi com pesca sempre, também. O que mais mudou daquela época para cá? Mudou assim: o que era difícil ficou mais fácil, mas o que era fácil ficou difícil (risos)... Hoje, a gente vê a diferença assim: antes havia a facilidade dos serviços, né? Tinha gente, garimpo, dinheiro... Sempre precisava de serviços. Hoje qualquer pobre compra motor pro barco, moto. E isso era difícil. Os primeiros motores que a gente usava eram fracos, caíam do barco. Eu lembro de quase me afogar tentando salvar o motor do meu pai (ele ri de novo). Tem outras possibilidades de se viver, mas falta aquele mundo de gente, dinheiro... A falta de gente, movimento e agitação parecem dar rumos para sua vida. Seu Babá é comerciante, também, possui um pequeno bar e armazém perto de sua casa. Além disso, mantinha o time de futebol da região, o Brasa FC. Todos ali se lembram, jogaram ou torceram pela equipe. Ele diz que quer retomar o Brasa, fazer a molecada jogar bola, diz que vai conseguir. A vida de seu Babá é Volta Grande, o seu anseio é a cidade. Ele conta como era ir a Altamira em outros tempos. Ia remando, de um a dois dias no rio. Mas ia. Essa “vontade urbana” nunca foi suficiente para arrancar sua vida de lá, mas o diferencia dos demais. Seu Babá é vaidoso. Já havia nos mostrado uma pequena parte de seu cacau secando, em frente a sua casa. Queria que Marcela visse sua dedicação, seu trabalho. Agora, após a pequena viagem de barco, quer que todos subam um íngreme barranco para ver suas lavouras. Mas todos estão cansados, e um coqueiro carregado promete um alívio para o calor e o suor que escorre pelos rostos. Marcela e seu Babá vão subindo, ficamos para trás, quebrando cocos. Aguardamos o relato de Marcela - que precisa ser colorido, seu Babá quer elogios. Além do cacau, que vai muito bem, ele vem se aprimorando para ter banana, milho, mandioca, coco e cajá, além de mudas de mogno, às quais também se dedica. Perguntamos sobre seus medos e esperanças. Com certeza, meu futuro, minha renda, tá no cacau, afirma. Dos medos, o discurso geral: como ficarão os peixes, se a barragem é segura, se essa assessoria técnica vai continuar... Mas seu maior medo é se não houver mais gente por aqui, se o dinheiro não circular? Para seu Babá, não basta se estabelecer, há que se integrar, se comunicar, conviver.
  • Em seguida, com mais 20 minutos de voadeira chegamos na Ilha da Fazenda, onde encontramos Veriano Ribeiro de Carvalho, de 51 anos. Esse é um caso exemplar, diz Marcela com orgulho, ansiosa por me mostrar o trabalho de Veriano em seus 75 hectares de terra. Esse está virando um agricultor no sentido amplo da palavra, está vendo seu futuro nessa atividade, planejando as suas roças, seu tempo. Veriano é um negro forte e jovial que não aparenta a sua idade. Como não é o tipo predominante na região, pergunto de onde veio. Está há quase 30 anos naquelas ilhas. Os companheiros protestam, acham que é mais. Todos se conhecem há anos, a cada embarcação que passa ao longe eles acenam, gritam, reconhecem o barco e contam alguma anedota sobre o barqueiro. Há 12 anos Veriano possui aquelas terras, mas só há uns oito anos trabalha nelas com mais cuidado. Ele é de São Félix do Xingu, seu pai era de Conceição do Araguaia, sua família atravessou a Terra do Meio até chegar naquela parte do Xingu.Veriano também é homem de múltiplas habilidades. Marisco de gato (pele de felinos e outros animais de caça), pesca, madeira, seringa, castanha, canoeiro (faz barcos de um pau, como dizem, cavados em um só tronco). Passou naturalmente pelo garimpo, mas com diferenças que demonstram seu perfil: fazia os serviços ao largo do garimpo, vendendo galinhas, alimentos, fazendo moagem, vendendo madeira. Ganhou mais que muitos garimpeiros, mas certamente preservou mais que a imensa maioria. Há uns oito anos começou com lavoura de subsistência, lavoura branca – milho, arroz, mandioca. Já havia açaí, mogno, teça, mas eram rendas de acompanhamento, extrativismo, não havia o plantio planejado. Agora ele tem plantado o açaí BR16, mirim, semente desenvolvida pela Embrapa, que alcança no máximo 2 metros de altura. O milho também é o IBRA, que está colhendo de três em três meses. E planeja um alqueire com 5 mil pés de cacau. Com sementes certificadas, valorizando a produção e suas terras. Com certeza, vamos ter que nos aprimorar aí, acho que o futuro está na lavoura. Ao andar pelas terras, vejo pimenta-do-reino em estacas, laranja-da-terra, bananas, galinhas... Marcela vai orientando um pouco sobre tudo: deixar a pimenta carregada apenas na parte de baixo, cortar as plantas parasitas do cacaueiro, como espalhar a uréia em volta da planta. Incansáveis os dois, vamos subindo e descendo em círculos cada vez mais amplos pela propriedade, ela mostrando como fazer, ele querendo fazer mais – fala de seu interesse na banana, em mudas de mogno, em receber sementes certificadas. Quando sentamos para conversar na casa que está montando aos poucos – Veriano mora em outra casa, com mulher e três filhas –, ele fala das dúvidas que tem hoje, do futuro, de seus anseios. Como todos na região, são dúvidas que normalmente expressam sobre a água, a mineração próxima, a continuidade da assessoria técnica. Sua preocupação maior são as explosões que antevê quando se iniciar a exploração das minas. Mas também prevê mais movimentação econômica, possíveis consumidores. Mas tem medo dos efeitos das explosões sobre os peixes. Pede informações a Marcela sempre que ela vem. Em meio à conversa, mostra a ela um papel com os certificados das sementes. Ela está contente com o andamento da lavoura, e começamos a falar sobre a outra preocupação de Veriano, a logística de escoamento. Marcela já havia ressaltado a honestidade e a clareza com que eles lidam com as pessoas, com as transformações, com suas expectativas. Quando peço para responder o que realmente pensa sobre os dias de hoje, ele frisa: a coisa que tenho mais medo é colocarem palavras em mim, sempre trato com respeito e carinho. Ele acha que precisarão de acesso por terra, além do fluvial, para chegar a Altamira. Hoje se chega de barco e se vende tudo na hora. Cacau não dura uma hora no barco. Mas e se as águas do rio mudarem? Sua preocupação denota um futuro em vista. Marcela esclarece que eles vendem a atravessadores, que precisam se unir para negociar conjuntamente e até mesmo, quem sabe, o comprador vir com o barco para o transporte. E o preço seria melhor, livraria o frete. Veriano pensa e já faz cálculos. Ele realmente fixa raízes. Pergunto o que lhe traz felicidade. Ele faz um desenho imaginário com o dedo sobre a mesa: eu moro bem aqui. Em volta, têm as casas dos meus cinco filhos casados, me cercando. Podemos almoçar juntos, nos encontrar sempre. É tudo que eu sempre quis. Trabalho, sementes, raízes. Sua família viajou bastante, mas Veriano assentou seu pequeno reino com muito suor. Pergunto, sabendo a resposta, se tem medo do que vem pela frente, das mudanças em curso. Tenho não. Sou tranqüilo, enfrento e corro atrás, conclui calmo, sorrindo.
  • Pelo que Marcela vai contando durante a viagem pelo rio, o desafio de seu trabalho é grande. Ficar preso à terra não faz parte dos sonhos de nenhum beiradeiro. A maioria ali conheceu e viveu o garimpo, mudou de fonte de renda conforme a força do vento (ouro, seringa, castanha, caça, pesca, construção) e não está habituada a ficar tão presa a mesma atividade, ao seu ritmo lento. Embora acumule muitos saberes e não levem uma vida nada fácil, os ribeirinhos nunca viram as suas terras como os agricultores tradicionais. Seu Jessé Oliveira Aranha, de 46 anos, é um exemplo dessa dificuldade. Ele está na Ressaca desde 2012, quando foi realocado. Sua casa anterior foi largada para trás devido às obras da UHE Belo Monte. Quando nasci, já tinha muito ouro em Itatá. Era bravo explorar na época, assisti a morte de muitos índios e cristãos, conta ele enquanto senta na rede e sua esposa me traz um bolo macio de mandioca, perfeito para acompanhar o café. Seu Jessé acaba de voltar de Belém, onde passou por uma retirada cirúrgica de um tumor na cabeça e sessões de quimioterapia. Minha vida foi garimpo,só estudei até a terceira série... Hoje é diferente, meus filhos estão estudando. Tem uma certa dificuldade em contá-los...Tenho aqui quatro filhos e uma neta, mas tem mais três filhas em Altamira... Acho que é isso.Ele terá de se mudar novamente devido às obras de uma mineradora. Mas suas terras para plantio não são ali, estão mais adiante. Marcela tenta falar das mudas de cacau, estavam enviveiradas, já foram plantadas? Não todas, ele diz, pedi a meu irmão que visse isso pra mim, completa, e o olhar volta-se para mim e para o chão, alternadamente: Isso aqui é tudo ouro embaixo, diz com os olhos brilhando.Mas larguei o garimpo em 97, agora não pode mais, lamenta-se. Olha de novo para Marcela e atira: eu queria que meu irmão cuidasse disso pra mim (referindo-se ao cacau). Volta ao garimpo: em 97 eu parei porque um túnel em que a gente estava desabou com quatro homens dentro... um estava ao lado, já ia entrar e, de repente.. Só meu irmão se salvou, os outros três morreram... Fiquei impressionado, sei lá, larguei o garimpo. E os olhos brilham de novo: mas conheço dois que ganharam muito e se garantiram, conseguiam segurar o ouro que garimpavam.. E, na seqüência, emenda: agora já tem cacau, queria criar novilhos. E olha para Marcela: acho que os vizinhos tão pegando o cacau lá, eu não posso ir, se meu irmão não for eles pegam, né? Pergunto sobre Belo Monte. Ele não vê muita diferença, acha que é o progresso chegando. Diz que a água está um pouco diferente, não sobe nem desce em demasia. Preocupa-se com a piracema, com os peixes que vão para as águas rasas desovar.Especialmente o curimatá, é tão bonito ver aquilo.Vamos ver como vai ficar. Acha que a agricultura, com essa assessoria técnica, vai tirar a terra da penúria, especialmente pelo cacau. Só faz ressalvas ao transporte para as escolas. A Norte Energia pôs escola pra índio lá longe daqui, por ser índio, né? Nossos filhos pegam barco ou voadeira pra ir estudar. E sobre a mineradora que vai se instalar na região, notei um centro de capacitação profissional na ilha. Ele vai aproveitar? Eu quero que minha filha vá lá e aprenda algo. Mas não é para garimpar, não podemos mais. Se fosse... Eu o olho na rede esticado, se recuperando da doença grave que teve, e pergunto se voltaria para o garimpo, se fosse possível, mesmo depois do trauma de 97. Ele negaceia, não diz que não ou que sim. Pergunto para pensar no que lhe sobrou de anos de garimpo. Pensando bem, avaliando... Sobrou só eu mesmo! E gargalha. Depois abre um sorriso de quem conhece algo que eu não sei, e completa: e minha experiência, né? A vida que tive. Insisto na possível volta. Os índios têm garimpo, eles podem fazer isso nas terras deles. Armados, não deixam ninguém entrar. Mandei falar com M... (o indígena responsável pelo garimpo que ele afirma conhecer), se ele precisar de investimento, sondagem, eu entrava de parceiro... E ri largamente, sabendo que eles não irão querer sócios. Na despedida, me deixa um sorriso enviesado, de quem se senta na mesa de jogo e mostra o gosto de correr o risco. Fico com a sensação de que, em silêncio, Seu Jessé diz que sua vida valeu a pena – e que jamais poderia ser de outra forma.  
  • Volta Grande, a parte mais sujeita a seca do Xingu. Aquela que, com o alarde de ativistas ambientais, lidera o ranking de denúncias sobre o assassinato de modos de vida sustentáveis e tradicionais, que seria promovido por Belo Monte. Fomos conhecer os moradores da região, mais especificamente de Ressaca e Ilha da Fazenda, já no município de Senador José Porfírio. Umas das ações resultantes da implantação da Usina Hidrelétrica Belo Monte – e, como tudo que se refere à Usina, costuma surgir em pequenas notas desvinculadas do termo Belo Monte – é a assistência técnica especializada aos agricultores da região. Alguns foram reassentados, outros receberam cartas de crédito e hoje fomos visitar os que, teoricamente, estariam em pior situação, por serem considerados “parcialmente atingidos”. Eles receberão, no mínimo, dois anos de assistência e supervisão em suas atividades. Esse trabalho faz parte de um Termo de Cooperação Técnica e Financeira entre a Norte Energia, responsável pela UHE Belo Monte, e a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará – Emater.Ao todo, serão realizados acompanhamento e assessoria a 333 beneficiários da Relocação Assistida, todos agricultores familiares com carta de crédito; 25 agricultores de comunidades ribeirinhas localizadas na área de vazão reduzida (Volta Grande, onde fomos); agricultores de localidades próximas aos canteiros de obras; famílias dos reassentamentos coletivos e as reassentadas em Áreas Remanescentes; cooperativas e associações de produtores de hortigranjeiros. Marcela Garcia Silva Batista, agrônoma, há dez meses distante de sua cidade, Campinas, acompanha 30 agricultores. Ela visitou conosco três unidades, três diferentes chefes de família que andam enxergando suas terras de maneira bem diferente do que há alguns anos.As terras que visitamos possuem um histórico ligado ao garimpo. Pessoas de sessenta anos contam que viveram o garimpo, de um jeito ou de outro, desde pequenas. Gostam de apontar para Ilha da Ressaca, Ilha da Fazenda, Garimpo do Galo, onde foram criados, e afirmar que são feitas de ouro bruto. Cortar seringueiras, quebrar castanhas e a pesca, claro, são as outras atividades rentáveis mais comuns em suas vidas. Uma combinação de todas, somadas a serviços de pedreiro, marcenaria, caça, a sobra da agricultura de subsistência... Mas o garimpo está presente em todas as histórias de vida. Todos os “novos agricultores” que visitamos – seu Jessé, seu Veriano, seu Babá – possuem grande resistência ao modo de vida urbano. São “beiradeiros”, como diz Raimundo, o piloto da voadeira que nos levou em vários recantos daquela área. Altamira já é grande demais, eles não acostumam mesmo... Aliás, nem eu, diz sorrindo. Mas eles não têm medo do progresso, adverte Marcela. A resistência deles não passa por esse temor. Eles gostam de saber o que se passa ǹa região, de ter todas as informações em mãos e de calcular por quais caminhos irão para garantir não só suas subsistências, mas o progresso material. Todos possuem inúmeras habilidades, muito conhecimento de todas as atividades importantes para a região, mas sempre utilizaram a terra para um complemento alimentar ou extrativismo. Agora muitos percebem que, com a mudança das condições do garimpo, com a valorização da atividade cacaueira (o Pará caminha a passos largos para ser o maior Estado produtor de cacau do Brasil) e com essa assessoria técnica, nas suas terras podem se abrigar suas futuras fontes de renda. E muitos já perceberam isso e estão tentando mudar seu ritmo de vida, suas atividades. Estão animados com isso. O trabalho da assistência técnica é pesado. Não dispensa a análise de solo para escolha das melhores culturas, a seleção de sementes da Embrapa. A obtenção dos Cadastros Ambiental Rural (CAR) e das Declarações de Aptidão do Produtor (DAP), documentos que certificam e permitem que o produtor possa exercer sua atividade de maneira racional e sustentável, também é importante para eles requererem linhas de crédito das instituições financeiras. E, no decorrer da assessoria, Marcela ainda percorre enormes percursos de terras para saber como as plantas foram enviveiradas, como as sementes foram plantadas, o que fazer para aprimorar o cacau, o açaí, o milho, a pimenta-do-reino, a banana, a mandioca e madeiras como mogno que estão sendo replantadas. Cidadania e organização produtiva caminham juntas. Marcela conta que eles querem saber tudo que se passa com aflição: as condicionantes a cargo da Norte Energia, as futuras operações da Usina Belo Monte, as pesquisas sobre os peixes, até mesmo sobre uma mineradora instalada a alguns quilômetros dali... E ela se torna o elo com o mundo exterior, ultrapassando seu trabalho técnico em grande medida. Afinal, a credibilidade e a confiança são totais. A honestidade deles é impressionante, eu acabei ficando muito ligada a cada família. Eles possuem um jeito bonito, muito claro para lidar com as pessoas. E falam o que fazem e o que querem com muita clareza. Do lado dos ribeirinhos, muitos com problemas de alfabetização, eles esperam que ela chegue em suas visitas semanais para assinar qualquer documento. Afinal, se ela diz que aquela assinatura é do técnico que assegurou as sementes doadas ou o CAR emitido, eles podem assinar tranquilamente, enquanto contam as últimas da família ou dos vizinhos. E quando acabar esse trabalho? Marcela responde, deixando transparecer a emoção, Acho que virei aqui por conta própria para ver como eles vão indo, no que deu todo nosso trabalho. É impossível não se ligar a eles emocionalmente.
  • A engenharia brasileira é referência mundial na construção de hidrelétricas de grande porte. A Usina Hidrelétrica Belo Monte está reforçando esta tradição. Um dos legados do empreendimento é o controle por GPS das lâminas de máquinas utilizadas, por exemplo, em escavações e cortes de taludes. “O programa de computador baseado em coordenadas faz o serviço, o que reduz o prazo de execução de obras. O operador da máquina não erra nem se quiser”, explica o diretor de construção da Norte Energia, Antônio Kelson Elias Filho. A nova tecnologia contribui para o rápido avanço das obras do Canal de Derivação (foto), de 20 quilômetros, que vai levar a água do rio Xingu às turbinas da Casa de Força do Sítio Belo Monte.











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